Alívio de uma mãe covarde

Alívio de uma mãe covarde

Você estava viva.

Minha filha, você estava viva.

Descobri isso numa manhã qualquer. Eu estava saindo de casa para mais um dia de trabalho. Abri a porta, respirei fundo o ar frio do início do dia e segui meus passos em direção ao ponto de ônibus, como sempre fazia. Mas algo me parou. Algo me puxou de volta antes mesmo de me afastar da calçada.

Duas figuras vinham caminhando pela rua, e uma delas… era você.

Demorei um ou dois segundos para acreditar. Foi quando vi os cabelos longos, ainda escorrendo pelas costas como naquela época. A pele clara, quase translúcida, que você herdou de mim. E aquele rosto, aquele rosto que eu reconheceria mesmo em meio a uma multidão. Mesmo com a distância, mesmo com o tempo… era você, Miska. Sem dúvida.

Você vestia um colete preto sobre uma camisa social branca, calça escura bem ajustada e botas com fivelas negras. Havia um ar de firmeza em sua postura, de frieza. Você parecia adulta. Crescida. Linda. Mais linda do que nunca. Mas havia algo mais: você estava acompanhada. Uma amiga. Sorriam e conversavam com naturalidade, como se o mundo ao redor fosse apenas pano de fundo para a amizade que havia entre vocês.

E foi aí que tudo se embaralhou dentro de mim.

Senti alívio. Uma onda quente de felicidade me atingiu o peito. Você estava bem — viva, andando, sorrindo, criando vínculos. Mas, junto disso, veio a dor. A culpa. O medo. Uma vontade imensa de correr até você, de te abraçar ali mesmo, de dizer que eu sentia sua falta todos os dias, que você nunca saiu da minha mente. Mas minhas pernas ficaram presas no chão. Meu corpo travou.

Vocês passaram por mim sem me notar. Estavam tão imersas na conversa que pareciam alheias a tudo. E, por um instante, isso me confortou. Porque, mesmo do lado de fora da sua vida, foi bonito te ver bem. Foi um presente silencioso. Um retrato de que, apesar de tudo, você seguiu.

Mas, minha filha, a verdade é que eu não consegui me mostrar. Não por falta de vontade — Deus sabe o quanto eu quis —, mas por covardia.

O medo me dominou. Medo de te olhar nos olhos e ver neles o reflexo da dor que te causei. Medo do que você pensaria, medo das palavras duras que teria todo o direito de dizer. Medo de reviver o dia em que te deixei, justo quando você mais precisava de mim.

E, convenhamos, Miska… que tipo de mãe surge assim, do nada, anos depois de desaparecer, como se nada tivesse acontecido? Como se fosse possível simplesmente ocupar um espaço que ficou vazio por tanto tempo?

Não tive coragem. Não consegui.

Eu sou uma mãe fraca. Uma mãe covarde.

E, nesse momento, talvez ainda esteja sendo egoísta ao pensar que, ao me manter distante, estou te poupando de mais um fardo emocional.

Porque, no fundo, não sei se você me quer de volta.

E, mesmo que quisesse… não sei se eu mereço isso.

Ao menos, carrego comigo uma espécie de consolo — tênue, mas real. A constatação de que, de algum modo, você sobreviveu àquele inferno. Você encontrou uma saída. Seguiu seus próprios passos, talvez inspirada nos meus, e decidiu escapar. Você escolheu a si mesma. Você se amou o suficiente para não permanecer onde só havia dor. E, honestamente, filha… você estava absolutamente certa.

Afinal, quem deveria te amar mais do que tudo… te deixou para trás.

E, embora essa frase me destrua por dentro, há algo nela que também me eleva: o orgulho.

Você cresceu.

Você aprendeu a se proteger — talvez cedo demais, talvez à força —, mas aprendeu. Tornou-se alguém que escolhe continuar, mesmo depois do caos, mesmo com os traumas, mesmo sem as respostas.

Eu não faço ideia de como está sua vida hoje. Não sei onde você mora, o que estuda, com quem anda, nem mesmo se sorri com frequência ou se ainda carrega dores que ninguém vê. Mas o universo, em sua estranha e muitas vezes cruel maneira de agir, me deu um vislumbre de você. Um instante. E, nesse instante, ele me entregou dois sentimentos: um presente e um castigo.

Porque ver você bem, viva, forte… foi um alívio inexplicável. E, ao mesmo tempo, uma dor surda — como se o universo dissesse: “Viu? Ela conseguiu, mesmo sem você.”

Talvez isso fosse pra ser uma lição. Ou um lembrete de tudo o que perdi.

Mas, seja qual for a intenção do destino com esse reencontro silencioso, só me resta dizer uma coisa, do fundo do peito:

Que alívio, filhota.


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